Criptomoedas – Como este ativo digital vai impactar os negócios?


O ano de 2017 foi um ano único na história das criptomoedas (ou cryptocurrencies em inglês). Aos que compraram estes ativos eletrônicos em seus lançamentos, ou seja no ICO (“Inicial Coin Offering”), tiveram em média um retorno de 1200% durante o ano de 2017[1]. Aqueles mais temerosos em relação ao risco extremo de um ICO puderam escolher criptomoedas já em circulação como o Bitcoin (BTC) o Ethereum (ETH) ou o Ripple (XRP). Os retornos foram igualmente absurdos chegando a 1336% para Bitcoin, 8984% para o Ethereum e 2016% para o Ripple durante o ano de 2017.

The literature on failures in large construction projects (or Mega Projects) presents several definitions to classify a project as flawed, but all these definitions converge to the same point:

Jargões como blockchain, tokens, distributed ledger, mineração, altcoins, ICO, hard forks, dominaram o noticiário quando o assunto era criptomoedas. Ao mesmo tempo opiniões sobre uma possível bolha especulativa em torno deste tipo de ativo eletrônico foram dadas aos milhares com assídua cobertura pela mídia na sua incansável busca de uma manchete.

Como todo ativo que possui um valor maior que zero, as criptomoedas surgiram com o propósito de resolver um problema da sociedade. Com isso seu valor está vinculado a sua capacidade de solucionar este problema. Aqui, assim como na sua vida, é importante não confundir preço com valor. Warren Buffet tem uma definição interessante que é a seguinte: “Preço é o que você paga, valor é o que você leva”[2]

A pergunta que deveria ser feita por qualquer um que queira entender criptomoedas é a seguinte: O que você leva quando compra 1 BTC? (que no momento em que escrevo este artigo tem seu preço negociado em aproximadamente R$ 54.000,00)

Para entender a resposta desta pergunta é necessário primeiro entendermos um pouco mais a fundo do que se trata esta tecnologia que já tem quase 10 anos e qual o problema que ela se propõe a resolver.

As criptomoedas são ativos eletrônicos que podem ser utilizados como meio de pagamento. Elas se utilizam da tecnologia blockchain e da criptografia para assegurar a validade das transações e a criação de novas unidades da moeda. Simplificando um pouco o conceito, criptomoedas são ativos guardados em um livro-razão público (“distributed ledger”) onde sua propriedade é assegurada por uma tecnologia fantástica que jamais permitiu manipulações, mesmo após quase 10 anos de seu lançamento. E o melhor, toda tecnologia embarcada nesta moeda é open-source, ou seja, o software utilizado possui código fonte aberto e pode ser livremente copiado, modificado e melhorado. Por esta razão se vê milhares de novas criptomoedas sendo lançadas todos os meses.

Em linhas gerais aquele caderninho de fiado da padaria que era anotado os débitos e créditos foi atualizado e melhorado, tornou-se público e todos têm acesso a ele. É possível ler seu conteúdo livremente, distribuí-lo (replicá-lo) igualmente as milhões de pessoas que participam da rede e só aceita alterações (novas entradas) daqueles que possuem a chave que autoriza essa modificação. A criptomoeda é somente a unidade monetária utilizada neste caderno de fiados moderno para controlar os débitos e créditos de cada um. É como se o dono da padaria tivesse inventado sua própria moeda e a utilizasse em todas as entradas de débito e crédito no caderno.

É relativamente simples entender que o valor desta tecnologia não está na unidade monetária criada e sim neste fantástico caderninho de fiados dos tempos moderno a prova de fraudes e afins que chamamos de blockchain.

E qual é o problema que esta invenção, o blockchain, veio resolver?

Mudanças radicais de paradigmas são mais fáceis de serem visualizadas quando estão distantes de nós, como por exemplo a imprensa escrita. A imprensa escrita foi seguramente a mudança de paradigma mais influente entre os séculos XV e XVIII, pois possibilitou ao homem comum o acesso ao conhecimento antes exclusivo a poucos como nobres, monges e membros da igreja. O motor criado no século XIX, veio mudar o paradigma energético da época, ajudando a acabar com a escravidão e consequentemente com o colonialismo. Conseguiu resolver o problema de energia da sociedade já que antes do motor, a energia fornecida era puramente manual ou de tração animal. A internet, inventada no século XX, mudou completamente o paradigma de distância e da disseminação da informação. O mundo é muito menor hoje do que 50 anos atrás dado que hoje é possível facilmente fazer negócios com qualquer um a qualquer distância graças à internet.

Com o aumento exponencial no número e no volume de negócios entre pessoas e empresas proporcionado pela internet, existe uma deficiência nesse ambiente de transação que vem aumentando e que demanda uma solução competente. Como resultado, aquele que conseguir preencher essa lacuna será lembrado por muito tempo e logicamente acumulará muito mais riqueza do que é possível se gastar em uma vida. Essa lacuna chama-se confiança e quem conseguiu fechá-la chama-se Satoshi Nakamoto[3], e a invenção chama-se blockchain (aquele caderninho de fiado moderno que conversamos a pouco).

É natural do ser humano que primeiro se confie na pessoa ou na empresa e depois se faça o negócio. Atualmente nossa solução para resolver a questão da confiança para se fazer negócio é ainda parcial e concentra-se em terceirizar essa atividade a um intermediário que se compromete a guardar os registros pertinentes para consulta quando se fizer necessário. Hoje em dia conhecemos muito bem esses intermediários, tais como SERASA, SPC, bancos, cartórios de registro de imóveis, cartório de registro civil, DETRANS, secretarias de segurança pública, órgãos certificadores, entidades de classe, juntas comerciais, cartórios de protesto, operadoras de cartão de crédito, etc.

A única, ou grande parte da atividade destes intermediários é somente prover um certo grau de confiança aos pares que estão dispostos a transacionar bens ou serviços. Infelizmente estes intermediários por sua natureza estão sujeitos a erros nas informações disponibilizadas, seja por declaração equivocada proposital (ex.: valor de venda a menor de um apartamento em um cartório), por adulteração pura e simples (ex.: identidade falsa, cartão de crédito clonado) ou até pela falta completa/erro na inserção de algum registro.

A tecnologia do blockchain veio revolucionar completamente a maneira de como obtemos confiança para nossos negócios no dia-dia além de potencialmente eliminar todos os intermediários que oferecem este serviço.

Conforme vimos, o blockchain é um grande livro-razão (“database”), aberto ao público, distribuído e replicado milhões e milhões de vezes dentro dos computadores da rede (mineradores) que, devido a tecnologia de criptografia implementada, é impossível a adulteração de registros já acordados como verdadeiros no passado ou também de se registrar eventos sem a chave privada específica para isso (ex. débito de X bitcoins na carteira Y).

Em resumo o blockchain, que é a tecnologia por trás do bitcoin e de qualquer outra criptomoeda, mudou completamente o paradigma de confiança dando uma solução extremamente competente e barata para o problema. Assim como no século XIV onde todos se perguntavam como poderiam colocar a imprensa dentro de seus negócios, no século XXI a pergunta foi como colocar a internet dentro de seu negócio. Hoje a pergunta que fica é: Qual minha estratégia para utilizar o blockchain no meu negócio? Seja ela qual for, pode ter certeza que vai passar pela resolução do mesmo problema: obter confiança plena para dar suporte e fomentar as trocas de bens e de serviços.

Abraços e sucesso.

Luiz Junqueira

Mora e trabalha em Zurique na Suíça. É diretor de projetos para África Subsaariana nas áreas de infraestrutura, energia, mineração, óleo e gás e investidor/empreendedor em cryptocurrencies desde 2013. Formado em Engenharia Civil pela UNESP (2002), pós-graduado em Engenharia de Produção pela USP (2006) e em Gestão de Projetos pelo ITA (2007) com MBA pela SBS Swiss Business School (2016).

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